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Caderno de receitas
1 – O ritual da cabeça decepada
No vale cercado de seringueiras há muita fruta, sombra e folhas secas
A técnica, assim como as orações as simpatias e as receitas são passadas de mãe para filha.
A mais velha prepara o altar e os instrumentos, prende o corpo da ave entre as pernas e segura a cabeça no toco. Com a lateral da faca, bate três vezes na jugular.
Não há transtorno no seu organismo. Tudo calmo: os batimentos cardíacos, a respiração, as mãos enrugadas não tremem.
Com um golpe arranca-lhe a cabeça e solta o corpo para mostrar às pequenas como ele corre, mesmo acéfalo.
As jovens evisceram, limpam, perfumam a água com ervas e entoam mantras enquanto cozinham.
Em volta da fogueira com as cabeças raspadas, comem a carne e bebem o sangue.
Depois, dançam sobre as brasas até virarem cinza.
2 – O ritual do tórax coberto de cinzas.
Os ciclos das mulheres, quando convivem durante um tempo, tendem a coincidir.
A técnica, assim como as orações as simpatias e as receitas são passadas de mãe para filha.
Depois do sangramento conta-se 14 dias.
O carvão preto na parte inferior da pálpebra simula lacrimejamento.
Levam as cinzas e caminham até a cidade dos homens.
Olham , sorriem, dançam e as flores azuis se contorcem em seus quadris.
A deusa permite e elas mostram o caminho.
As cinzas são misturadas ao azeite e espalhadas sobre os tórax deles.
Um dia, nascem as crianças.
Então, exilam os meninos e instruem as meninas.
3- O ritual dos cabelos molhados e do perfume sobre a pia
Andam milênios até chegar aqui para ouvir o som do metal vibrando na porcelana.
A técnica, assim como as orações as simpatias e as receitas são passadas de mãe para filha.
A virgem prepara as águas e com a cuia banha o corpo da outra.
Diz as palavras.
Sob a seringueira, durante sete dias aguarda.
A fumaça do incenso dispersa os pensamentos e as lembranças a abandonam.
Colhe com a boca a água dos temporais.
O conteúdo do frasco é vertido em seu sexo, que reflete a luz dos trópicos.
4- O ritual de incineração das escrituras sagradas
Na clareira, ao pé da grande árvore, mantém-se acesa a pequena fogueira.
A técnica, assim como as orações as simpatias e as receitas são passadas de mãe para filha.
A mais nova delas é trazida de olhos vendados e recebe o livro sagrado. Com os dentes, a velha arranca as páginas e as lança nas chamas.
Chovem lágrimas dos olhos das virgens que gemem e se contorcem no chão da varanda.
Depois, em silêncio, assistem a última brasa se apagar.
A venda da pequena á enterrada sob as cinzas.
Derramam-se perfumes.
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